Entrevista: Pedro Baldanza (Som Nosso de Cada Dia)

“Na única aula de música que eu tive na vida, o cara me deu o baixo, pegou a guitarra e falou: ‘Tá vendo essas quatro cordas de cima? São o “Mi”, o “Lá”, o “Ré” e o “Sol”. O baixo é isso aí. Onde eu colocar o dedo você coloca também’”.

Foi assim que Pedro Baldanza, o Pedrão, me descreveu a sua primeira experiência com um instrumento musical. No caso, o baixista gaúcho, que eternizou seu nome na história do rock progressivo brasileiro com a banda Som Nosso de Cada Dia (SNCD), tinha apenas dez anos de idade e formava o seu primeiro conjunto para tocar em bailinhos de Porto Alegre no começo da década de 1960.

Perseguido pela Ditadura Militar, o pai do aspirante a roqueiro fugiu com a família para São Paulo, onde viria a falecer cerca de um ano mais tarde nas mãos dos militares. Com apenas 12 anos, Pedrão se viu diante da responsabilidade de sustentar mãe e irmãs, e foi na música que enxergou uma oportunidade para isso, por mais contraditório que isso pudesse parecer aos olhos da época.

Tocou com o embrião do que viriam a ser os Novos Baianos e acompanhou Walter Franco em alguns trabalhos experimentais. Em 1974, participou das gravações do lendário disco “Nascimento”, do Perfume Azul do Sol, e poucos meses depois deu vida à obra-prima “Snegs”, do SNCD, ao lado de Manito e Pedrinho Batera. Nos anos seguintes, chegou a gravar com artistas como Ney Matogrosso, Elis Regina e Gal Costa e, atualmente, é baixista da dupla de rock rural Sá & Guarabyra, com quem está há cerca de 30 anos.

Pedrão me recebeu para uma conversa onde falamos, entre vários assuntos, sobre SNCD, Perfume Azul do Sol e o cenário do rock brasileiro dos anos 1970. Confira a entrevista:

Eu gostaria de começar falando um pouco sobre a pré-história do SNCD. A sua primeira banda aqui em São Paulo foi o Enigmas, certo?

Isso. Eu estava morando em Ribeirão Pires e conheci o Jean e o Odair Cabeça de Poeta. Por volta de 1968, 1969, fundamos o Enigmas e começamos a fazer alguns bailinhos pela região do ABC Paulista. Mas pouco tempo depois acabamos conhecendo os Novos Baianos e viramos a banda de apoio deles.

Mas como foi esse encontro com os Novos Baianos?

Conhecemos o Paulinho Boca de Cantor, a Baby, o Galvão e o Moraes Moreira num boliche em Ubatuba, na época do disco “Ferro na Boneca”, o primeiro dos Novos Baianos. O Pepeu Gomes ainda estava na Bahia, mas a banda trouxe ele para morar com a gente em Ribeirão Pires, e começamos a acompanhar os caras nos shows. Tocamos muito no programa do Chacrinha e em alguns festivais, como o FIC (Festival Internacional da Canção) que o Tony Tornado venceu com a música BR3, em 1970. Mas aí começou a pintar a história dos Novos Baianos se mudarem para o Rio de Janeiro, e eu precisava ficar em São Paulo porque sustentava a minha mãe e minhas irmãs. Aí eles foram e eu fiquei. O Odair foi fazer outras coisas e o Enigmas acabou terminando também. Foi aí que conheci o Walter Franco, bem na fase em que ele estava começando com aquele negócio mais experimental, a onda de “Cabeça”. Chegamos a gravar algumas coisas, mas ele quis ir para o RJ para fazer festival e não arrumou passagem para mim. Só tinha passagem para ele. Mas nessa época eu toquei com várias pessoas. Era uma cena mesmo que acontecia aqui em São Paulo no final dos anos 1960 e início dos 1970. Toquei com o Wando, Belchior…Estava todo mundo começando. Foi numa dessas que conheci o Manito e o Pedrinho.

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Capa de disco dos Os Incríveis (Manito na extrema direita, na fileira de cima)

E o Manito te convidou para fazer parte de uma banda grande, de baile, com metais e tudo o mais. Como é que, disso, acabou nascendo o SNCD, um trio de teclado, baixo e bateria?

O Manito tocava com Os Incríveis, banda da Jovem Guarda que já fazia sucesso, mas ele teve uns desacertos pessoais que eu nunca conheci bem com o pessoal do conjunto e resolveu sair. Ele alugou uma casinha no Jardim Bonfigliolli, no Butantã, para botar seus equipamentos, e o Pedrinho estava morando lá também. A ideia do Manito era fazer uma grande banda de baile, com vários cantores, numa onda parecida com a dos Incríveis mesmo. O grupo se chamaria Bloco Cabala. Mas não estava dando muito certo. O Manito percebeu que não era fácil juntar as pessoas, que a coisa não ía pra frente. Aí, um dia, eu estava na casa dele com o Pedrinho tocando as minhas músicas, as que viriam a fazer parte do Snegs, e ele ouviu e falou “Porra que música é essa aí? Que legal cara, vamos fazer essa onda” e eu respondi “Vamo nessa” e pronto, nasceu o Som Nosso.

Você poderia falar um pouco da composição dessas músicas? Você já tinha elas prontas quando formaram o SNCD? O que te inspirava naquela época?

Isso tudo nasceu de uma parceria que eu tinha com um jornalista chamado Paulinho Machado, o “Capitão Foguete”, um jornalista intelectual, muito culto, o cara por trás daquela série de LPs da MPB produzida pela Editora Abril. A gente conversava muito, trocava ideia, e eu peguei esses papos que nós tínhamos e fui transformando em música. Com o Manito e o Pedrinho, foi só passar para os instrumentos aquilo que já rolava. Os arranjos já estavam mais ou menos prontos.

Pedrão (esquerda), Manito (centro) e Pedrinho Batera (direita)

É verdade que a mesa de som estava quebrada durante as gravações do CD?

Sim, a mesa estava sem o PAN, o que fez com que nenhuma música do Snegs tenha aquela brincadeira de jogar o instrumento para um ouvido, depois para o outro…O negócio foi feito na base da martelada, sem condição nenhuma, com chiado e tudo. Tanto é que na época os críticos achavam o nosso disco uma bosta, como eu também sempre achei, na verdade. Tecnicamente é um álbum muito ruim.

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Capa do disco “Snegs”, do SNCD

Mas por que vocês não esperaram um outro momento para gravar então?

Porque a gente não tinha grana. Foi um convite que a gente recebeu para gravar, e a gente foi lá e agarrou a oportunidade. Ninguém acreditava muito no rock naqueles tempos, ainda mais no progressivo. A única banda de rock’n roll para a mídia eram os Mutantes e isso era um emputecimento grande que a gente tinha porque outras bandas da época faziam um puta som legal, mas não encontravam espaço. Era muito difícil ter condição para colocar as coisas em prática. Você sonhava, e só. O Som Nosso foi uma possibilidade que eu tive de gravar as coisas que estavam na minha cabeça.

E o que o Snegs rendeu para vocês na época? Fale um pouco sobre o show do Alice Cooper que vocês tiveram a oportunidade de abrir.

Foi a única coisa grande que aconteceu por meio do Snegs para a gente. Eu acredito que o pessoal do Alice Cooper tenha escolhido a nossa banda não por causa da música, mas pelo fato de sermos um trio, o que, em questões de logística, seria mais fácil de organizar. Mas eles se ferraram, porque o público gostou tanto da gente que, no Rio de Janeiro, começou a gritar o nosso nome no meio do show do cara. Eu não gostava do som dele não, achava meia-boca, mas o guitarrista era muito bom. Fizemos uma bela amizade com ele e com o cara do som. O pior é que os técnicos do Cooper gravaram o nosso show, mas eu perdi o contato com eles e nunca tive a oportunidade de ouvir esses arquivos. Nem sei se existem mais.

Você nunca tinha tocado para um público tão grande, certo? Tremeu um pouco?

Eu não tremi não, véio. Para mim, a sensação de tocar no palco é sempre a mesma. O mesmo tesão que eu tenho pra tocar no boteco eu tenho por fazer um Rock in Rio.

O disco “Nascimento” do Perfume Azul do Sol, no qual você gravou o baixo, é do mesmo ano do Snegs. Como você foi parar nesse projeto paralelo?

Capa do disco Nascimento, do Perfume Azul do Sol

Capa do disco “Nascimento”, do Perfume Azul do Sol

O guitarrista do Perfume Azul era o Jean, o mesmo da minha primeira banda em SP, a Enigmas. Ele me chamou para gravar o baixo e eu fui. Isso foi um pouco antes do Snegs, inclusive. As músicas eram todas da Ana Maria, vocalista, e do Benvindo. Era uma coisa muito louca, uma mistureba bem psicodélica. O Benvindo era mais doido que o pessoal dos Novos Baianos, ele era incrível, tanto é que virou painho do Ayahuasca lá no Acre e ficou pro lá até alguns anos atrás, quando morreu. Ele até me mandava algumas letras de vez em quando, mas muito “viajandão”. Nunca mais fez nenhum trabalho musical.

O rock progressivo tinha algo de transgressor para uma época como a Ditadura Militar. O SNCD chegaram a sofrer algum tipo de censura?

Me lembro de dois shows em que fomos proibidos de tocar, e chegamos a ser presos depois de um show em BH só porque tinha muito maconheiro assistindo à apresentação.

E depois do Snegs? O que aconteceu com a ópera “Amazônia” que vocês queriam gravar? Me explique direito a relação dela com o “Sábado/Domingo”, segundo disco da banda.

A gente chegou a gravar a “Amazônia” no estúdio do Rogério Duprat, mas a CBS fez o favor de perder metade dela. A CBS comprou o trabalho para a gente poder pagar o estúdio, mas não queria lançar porque não achava comercial, e queriam que gravássemos uns funks que eu e o Pedrinho gostávamos de fazer na noite na época. Aí eles lançaram esses funks e uma parte da ópera, o que acabou sendo o “Sábado/Domingo”, mas o resto de “Amazônia” a CBS perdeu, não existe mais.

Nas décadas seguintes você gravou com nomes de peso da MPB. As oportunidades foram aparecendo naturalmente?

No final dos anos 1970 eu fiquei de saco cheio da luta, de não conseguir dinheiro tocando, e fui embora para o RJ tentar a vida lá. Comecei a tocar com um monte de gente, e chegou um momento em que eu nem corria mais atrás. O pessoal ligava em casa atrás de mim para gravar. Eu devo ter participado de no mínimo uns 850 discos. Toquei com Elis Regina, Ney Matogrosso, Gal Costa…Atualmente estou com o Sá e Guarabyra. Tive a oportundiade de conhecer o Zé Rodrix, quando eles voltaram a tocar juntos agora nos anos 2000, e gravamos um puta disco chamado “Amanhã”, mas infelizmente o Zé morreu, uma pena. O disco nasceu morto também.

Você ainda pensa em um projeto autoral?

Eu tenho vontade de fazer um lance, sim, um novo trio de teclado, baixo e batera. Tenho um monte de música pronta, tudo arranjadinho. Fico aqui gravando com o meu pedalzinho. Estou até voltando a tocar de palheta para fazer esses lances do prog, essas frases rápidas, mas estou apanhando um pouco (risos). Porém pra variar está faltando grana e fica difícil arranjar estúdio para ensaiar, juntar todo mundo.

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Pedrão em seu quarto/mini-estúdio

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